Saturday, November 07, 2009

Alimentação vs Gastronomia - O Debate Conceptual

Alimentação vs Gastronomia

Na sequência do debate Alimentação vs. Gastronomia ocorrido numa aula de Técnicas de Cozinha foi-nos solicitada a redacção de um texto que analisasse esta dicotomia conceptual.

Após a leitura de alguns textos sobre a matéria em questão, torna-se clara a distinção entre os dois conceitos.

Segundo a Enciclopédia Enaudi (1989, vol. XVI) «a alimentação não é apenas a satisfação de uma necessidade fisiológica, mas também uma forma de comunicação, a ocasião de trocas e de actos de ostentação, um conjunto de símbolos que constituem, para determinado grupo, um critério de identidade». Deste modo, a Alimentação consubstancia uma das muitas actividades do quotidiano de um qualquer grupo social, adquirindo, desta forma, um lugar central na caracterização biológica, psicológica e cultural do ser humano. Isto permite-nos afirmar que os alimentos não são, exclusivamente, substâncias que nos permitem nutrir carências biológicas.

Pode-se definir Alimentação sob vários aspectos, nomeadamente; tecnológico-económico (talvez o aspecto mais transversal no tempo e no espaço); sociológico (dada a significativa importância no estabelecimento e reforço dos laços de solidariedade no seio comunitário); e ideológico-valorativo (dada a importância crucial nas sociedades actuais, na procura da conservação e promoção de usos e costumes idiossincráticos a um povo). É igualmente pertinente ressalvar que, quando pensamos sob o ponto de vista sócio-ideológico-valorativo, podemos afirmar que certos domínios alimentares resistem à mudança social e ideológica, devido à existência de uma “alimentação materna”. Aspecto perfeitamente constatável no fenómeno da emigração.

A Alimentação é, sem dúvida alguma, um forte aspecto da identidade sócio-cultural. Comer é, essencialmente, uma actividade social (envolve a escolha dos alimentos, as combinações, as técnicas usadas, entre outros aspectos), e como tal, expressa a forma pela qual os indivíduos de diferentes sociedades projectam a sua identidade.

A Alimentação pode, sob o ponto de vista sócio-cultural, adquirir os mais variados significados. Ora vejamos: suplantar a fome; prevenir e combater doenças; iniciar e/ou manter relações sociais; e demonstrar a pertença a um determinado grupo social. É, porventura, a primeira aprendizagem social do ser humano.

Estando realizada a sucinta explanação sobre o conceito de alimentação, é agora altura de nos debruçarmos sobre o de Gastronomia. E, para tal, basta reflectir no facto de o ser humano ser a única criatura no mundo que pensa e fala sobre os alimentos, a única que segue regras precisas sobre o que come, as técnicas que utiliza, os lugares de degustação, as pessoas que partilham a mesma refeição, etc.

A Gastronomia afigura-se, assim, como um todo onde a Alimentação apenas representa uma parte componente, muito embora, a mais importante. Apresenta-se como um discurso sobre o prazer à mesa, a arte de se falar sobre o que se come, sob o ponto de vista daquele que é conhecedor do acto de degustar. Um gastrónomo, ou gourmet (termo francês) é, consequentemente, aquele que se preocupa com o refinamento da refeição, com as proporções, o serviço prestado e o ambiente. Ou seja, a Gastronomia nasce do prazer proporcionado pela alimentação, daí que se posicione num plano mais alargado que a segunda.

Enquanto o conceito de alimentação vem sendo construído ao longo da História da Humanidade, a Gastronomia é bem mais recente (séc. XVIII), fruto da maior importância que a alimentação adquiriu ao longo dos tempos sob o ponto de vista sócio-cultural.

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