Friday, March 19, 2010

Viagem à mesa - o chá Darjeeling


Feita a devida pausa para outros "sabores do mundo", aqueles que por vezes dão nós no estômago, está em falta a continuação do relato que aqui começámos na semana passada. E que esplêndida ocasião, com a Primavera a chegar ao céu e aos jardins londrinos, com a urbe a revitalizar o seu espaço, desde as grandes artérias do comércio até às pequenas travessas dos subúrbios. O Sol resplandece desde manhã cedo, e a imaginação flui para o exotismo das paragens setentrionais, onde o império britânico nunca se punha e as ríspidas Isles davam lugar à candura dos trópicos. Vamos para a Índia, seguindo a companhia de amigos do coração e dos aromas e sabores do sub-continente.

Começaram as intrépidas aventureiras do Tea Tracing Project por explicar as origens do próximo chá, cujo requinte e apreço pelo mundo afora, contribui para um preço que foge à média dos produtos de uma qualquer prateleira. Cultivado no norteste da Índia, no estado Bengala Ocidental, adjacente ao actual Bangladesh, este chá caminha todos os anos milhares de mihas desde o sopé dos Montes Himalaias para consolar os salões de chá britânicos com a sua presença medidativa. O aroma desperta os sentidos interiores para uma alegria de vida que advém da sua universal comunhão com o chão-natureza, puro exercício de refresco do karma. Talvez a altivez da Montanha Mãe combine com a ancestralidade do Rio Ganges que calcorreia os limites da província de Darjeeling, que atribui o nome ao chá. Dessa confluência resulta uma experiência basilar que nos liga a algo simultaneamente interior e superior, mais acalentando a curiosidade para desvendar os segredos da terra das especiarias quinhentistas.



Repetindo o gesto de tapar a chávena de chá, por forma a concentrar o aroma para posterior consolo, eis uma prática que uniu uma audiência de gentes de todos os contos e paragens. Debaixo de uma cúpula que protegia uma biblioteca luso-brasileira, muitas das obras dedicadas à gesta lusa no Oriente, onde nossos avoengos primeiro provaram o Darjeeling. Foram estas gentes e esta gesta que nos abriram as portas para uma transcendência dos sentidos, quando os aromas foram libertos e lançados pelos quatro cantos da biblioteca. Respirou-se Brâman e experimentou-se um regresso às origens, que nunca cessam de começar. Por longos minutos rejuvenesceram-se os espíritos, fez-se uma pausa do aqui e agora e adivinhou-se o além e o sempre.

Foi feita justiça ao Darjeeling, que das íngremes estepes do nordeste Indiano, de folhas brancas e exímio preparo, chega-nos ao mundo com um pedaço de sabedoria milenar. Mais fino no paladar do que o Sensha, exige dos sentidos uma receptividade que revoluciona a prática consumada. Com Darjeeling não somos nós que bebemos o chá, mas é o chá que nos sorve no seu envolvimento revivalista.

Poucos dias passados, ofereceu-me uma amiga Indiana uma caixa com saquetas de Darjeeling. Inundámos, de imediato, a atmosfera com um mantra inaudível, mas que trazia as pessoas para próximo da sua fonte: um dos melhores chás do mundo.

 

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