Saturday, March 13, 2010

Viagem à mesa - o chá do Japão



Mais uma reportagem errática do intrépido repórter destacado no estrangeiro,

Após ausência prolongada por demasiadas peripécias, mais que aquelas que poderíamos aqui distinguir, volto com notícias de além-mar. Em evento celebrado na Canning House, casa-mãe da Associação Luso-Britânica em Londres, em célebre praça fecunda em embaixadas e consulados doutras côrtes junto da Corôa Britânica, cuidou-se de chá. Passavam duas horas das cinco quando um par feminino de jovens entusiastas apresentava-se como o Tracing Tea Project. Antigas alunas da Universidade de Cambridge, e cansadas, porventura, do hábito continental em beber café, dedicaram-se à criação e expansão de um grupo teófilo (tea, tr. ing. chá + filo, adj. atr. dedicação, entusiasta, estudioso; pun intended).

Com expansivo sentido industrioso, prepararam um vasto repertório de regiões eurasiáticas destinadas à plantação dos melhores chás do mundo. O objectivo era cartografar, inclusive historiograficamente, o actual consumo abastado de chá nas Ilhas Britânicas até aos seus locais de cultivo, indagando quando e como se formaram tais rotas de comércio das pequenas folhas de plantas tidas por espirituosas. Diante de uma plateia de amizade luso-britânica, composta essencialmente por súbditos da Rainha cujas estórias os levaram a Portugal, pré- ou pós-revolucionário, começou a Megan por datar o comércio com destino à Europa por época ulterior à queda de Roma. Informava-nos que junto da porcelana e sedas do Oriente, pela Rota da Seda, encontráva-mos também chá, compresso em quantidades variáveis, quando submetidos a temperatura acima daquela ambiente e envoltos em óleos vegetais. Assim solidificados, os chás tomavam a forma de tijolos, de chávenas, de cubos, cujas elaboradas inscrições em caracteres orientais indicavam as qualidades do produto, sua origem de produção, exportador, quantidade, dentre outra informação. Para gáudio e surpresa da audiência, cuidaram as cicerones em fazer passar chá em forma de ninho de pássaro, cuja consistência assimilava-se àquela de um molde de barro. Assim preparado, bastava um corte de porção desejada, e em contacto com água aquecida, dissolvia-se em igual moda das actuais saquetas.

Preparando caminho para a prova da primeira variedade de chá, contou-nos a Megan que, consensual entre especialistas, a temperatura da água não deve exceder os 18º/19º Celsius. Ora contraria esta informação o vulgar ditado popular, que clama ser necessário ter água em fervura para melhor preparo do chá. Oxalá muitos ouvidos a ouçam, caso ainda pretendam manter o sentido gustativo para a prova de tão requintada infusão. Com água a ferver, recordo-me queimar frequentemente as pupilas para além do reconhecimento entre açúcar e areia! Os bules, enfim, enchiam-se.

A explicação prolongava-se até à incontornável acção de Catarina de Bragança, principal responsável pela importação do culto do chá aquém Canal. Prática vulgar nas demais cortes, cortesia do comércio português das Índias, permanecia vulgo a bebida de ales, infame cerveja produzida através da fermentação da cevada maltada, que ainda hoje lhe tomam por muy prazerosa. Chegada Catarina a Portsmouth, por ocasião do seu casamento com D. Carlos II em 1662, requeriu o préstimo um serviço de chá. Atónitos, prestaram-lhe os seus novos aios cerveja, única bebida largamente disponível e que suplantava até o consumo de água, à altura imprópria por falta de trato. Rainha consorte, introduziu de imediato uma nova moda aristocrática que cedo tomou rédeas de toda a sociedade britânica. Levava, assim, um novo hábito e novos territórios, fazendo Tânger e Bombaim partes integrantes da cláusula de casamento a entregar à Sua Majestade.



O primeiro chá do serão prendia-se, portanto, à história portuguesa na Ásia. Era de origem japonesa, designado Sencha., onde o nome chá pronuncia-se Ocha. Variedade de chá verde, é por si só responsável por cerca de 80% de toda a produção japonesa de chá, sendo, portanto, de vulgo consumo em terras de Nihon. Relatos portugueses da época ditavam a existência de uma bebida azeda comummente oferecida entre as gentes do Oriente, tida por medicinal, à volta da qual se criaram Casas de Chá onde a alta sociedade se reunia para amenos encontros. Tal é, de facto, um registo que Wenceslau de Moraes reproduz magistralmente no seu livro O Culto do Chá. Descrito como de sabor forte, e de fragrância e corpo gramíneo, é original da China, e inaugurou tão aguardado evento.



Comerciantes dos mil ofícios, cuidaram os Portugueses em estabelecer o primeiro elo de ligação marítima entre o Japão e a Europa. Logo interrompido pela chegada dos Tokugawa e instauração do Período Edo, o tráfego apenas seria restabelecido em 1866, por alturas da Restauração Meiji. E que tragédia seria, à sua própria escala. De trato suave e sereno, o Sencha possui o mais fino aroma. As suas folhas, pequenas, decorariam com apreço um conjunto de porcelanas com motivos nipónicos, produzindo uma fragrância muito tida em conta pela cativada audiência. Tapando a chávena com o pires, mantendo o vapor aromatizado para maior concentração, a sua libertação iguala um prolongado exercício de meditação, apresentando uma espiral de sensações através de uma profunda respiração que preenche o espírito de um vigor chão-terra. A bons tratos se prestam nossos antigos irmãos e irmãs da Terra do Sol Nascente, justificando sobejamente sua famosa hospitalidade a quem de boa educação. Acompanhado por biscoitos, instalou-se uma verdadeira atmosfera de confraternização na mansão número 2 de Belgrave Square. Aí encontrei caras já familiares de outros eventos culturais, fiéis atentos à cultura portuguesa de boa apresentação, cordiais entusiastas do bom que se produz em terras lusas, e respeitosos curiosos de quem lhes traz novas experiências. Cada qual arriscando o seu Português, lançavam umas expressões lusas seguidas de gargalhadas de quem pertence a uma tribo citadina de destinos distantes.

As próximas provas, acompanhadas por respectivas introduções, prometiam um serão de ameno refastelar. Esse será um relato a apresentar noutra ocasião, para quem persegue o sonho da descoberta e da aprendizagem. Até breve!

T

 

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